Esta semana, meu amigo Paiva Júnior, pediu que eu escrevesse o texto sobre alimentação para a 2ª edição da Revista Autismo. Foi então que eu me dei conta de que não tinha disponibilizado o 1º texto escrito para o lançamento desta revista tão sonhada e batalhada, cujo surgimento foi detalhado aqui no blog.
Eu e a nutricionista Priscila Spiandorello somos as responsáveis pelos textos permanentes de alimentação e nutrição da revista. A nossa idéia é fazer textos interligados a cada edição para que o leitor vá aprendendo em etapas a necessidade de uma nutrição adequada tanto para a saúde física quanto a mental.
Então, o primeiro texto foi escrito para que os leitores reavaliem o seu entendimento sobre alimentação e o que estão fazendo com a saúde de seus filhos.
Gostaríamos de ressaltar o quanto a nutrição tem sido negligenciada após a revolução industrial e saída das mulheres para o mercado trabalhista onde deixamos de aprender a cozinhar com mães e avós, a aprender a comprar comida (frutas, legumes, cereais) e o valor/benefício que cada alimento tem.
Pelo menos 3 gerações já deixaram de aprender a cozinhar com livros e tradição familiar, para aprender a cozinhar com a TV patrocinada pela indústria alimentícia.
A saúde da população mundial está entrando em colapso e ninguém se dá conta disso.
Sou a favor da inclusão da nutrição como matéria de grade curricular de escolas desde o ensino fundamental até o ensino médio. Esta seria uma solução rápida e eficaz para hábitos alimentares saudáveis e que consequentemente uma boa saúde, fossem obtidos desde a infância. Todos os gastos governamentais relacionados a saúde seriam drasticamente diminuídos em poucos anos, pois seria estabelecido um sistema simples de prevenção: a educação alimentar.
Vivemos para comer ou comemos para viver?
A resposta é bem lógica, mas parece que estamos a cada dia nos distanciando cada vez mais dela. A vida moderna cada vez mais agitada e corrida, está nos empurrando de forma acelerada para um tipo de alimentação que privilegia a saciar a fome e os desejos, deixando em segundo plano a estruturação física e o bem-estar.
As mudanças no comportamento
humano ditado pela mídia e por campanhas publicitárias são percebidas de forma
muito clara nos estabelecimentos de nossos hábitos alimentares mutantes.
Estamos aprendendo a comer através de anúncios de televisão, quando deveríamos
estar aprendendo através de livros. É bastante comum ver uma criança torcendo o
nariz para um alimento que não esteja dentro de um pacotinho colorido.
A máxima pregada pelos pais
de “quero dar tudo do bom e do melhor para o meu filho” não se aplica no campo
da alimentação. Dar-lhe tudo do bom e do melhor, ao invés de ser alimento
natural e verdadeiro rico em nutrientes para o corpo (físico) e a alma
(psíquico), significa aqueles inúmeros alimentos industrializados, congelados,
cheios de químicos, conservantes e corantes que inundam os nossos comerciais de
TV.
A falta de uma disciplina para educação alimentar na escola, aliada ao
marketing agressivo direcionado às crianças, a falta de tempo para os afazeres
domésticos da família moderna e a cultura crescente de que o fogão é peça
fundamental para grandes chefs de culinária ou um símbolo da subserviência da
mulher, tem gerado uma corrida a alimentação vazia colocando em risco a saúde
da população mundial desde muito cedo.
Há pesquisas recentes uma
feita pela UNIFESP e outra publicada no Jornal de Pediatria, onde constata-se
uma introdução inadequada a alimentação já a partir dos 3 meses de idade em todas
as classes sociais. Refrigerantes, Leite de vaca, macarrão instantâneo, massas,
sucos artificiais e bolachas recheadas, são itens bastante consumidos por bebês
a partir desta idade.
Mas se apelarmos para a nossa
memória, não será difícil verificarmos o quanto os hábitos alimentares tem
mudado drasticamente.
Minha avó no café da manhã consumia
leite puro da vaca deixado nas casas das freguesas todas as manhãs por aquele
produtor dono de umas vaquinhas e que também produzia queijo. Esta refeição era
complementada por suco de frutas do pé, raízes cozidas na hora ou pães feitos
em casa. Minha avó morreu quando eu tinha 11 anos, mas ainda lembro as delícias
que ela fazia na minha 1ª infância. No meu café da manhã já foi introduzido o
leite de saquinho comprado todos os dias na mercearia da esquina, fervido e
bebido com café de grãos moídos na hora na mesma mercearia e feito no coador de
pano, com o pãozinho da padaria ou o biscoito cream-cracker do supermercado. O
café da manhã dos meus filhos já passou a ser com aqueles cereais super saudáveis
que lhes dão uma saúde ferro, cheio de açúcar e corantes, complementados por
leite enriquecido com água oxigenada e o achocolatado de caixinha com 12
vitaminas e minerais sintéticos.
Asma, bronquite, problemas respiratórios, alergias, rinites, sinusites,
constipações frequentes, sistema imunitário que não responde, vírus
resistentes, distúrbios de aprendizado e comportamento como hiperatividade,
déficit de atenção e autismo ... obesidade, hipertensão, diabetes, problemas cardíacos...
são problemas graves para a saúde pública, especialmente ligados a alimentação e galopantes, que deveriam nos pôr a
pensar o que estamos fazendo com as nossas vidas.
Então por que e para quê
comemos?
Para nos mantermos vivos,
pois o alimento nos fornece a energia que precisamos. Ok! Mas será somente essa
a função do alimento?!
Os alimentos são fontes de
energia, mas também de nutrientes, como vitaminas e minerais essenciais para o
funcionamento adequado do nosso corpo, além de conter outras substâncias, como
os fitoquímicos, presentes em frutas, verduras e legumes, que tem propriedades
antioxidantes e antiinflamatórias, auxiliando no fortalecimento do sistema
imunológico, combatendo os radicais livres e agindo na prevenção de diversas
doenças.
Saúde é um estado de
completo bem - estar físico, emocional e social e não apenas a ausência de
doença. Ao longo dos anos descobrimos
que alguns alimentos que consumimos contribuem para a nossa saúde, enquanto
outros podem acelerar o processo de doença. É preciso entender que alimentar-se
é diferente de se nutrir, alimentação tem que ser prazerosa, faz parte dos
nossos hábitos culturais e familiares, mas precisamos ficar atento ao que
ingerimos, ao que estamos fornecendo para o nosso corpo, pois o verdadeiro
alimento contém a matéria prima importante para o funcionamento, para a
formação e renovação celular adequada do nosso organismo, ressaltando sempre a
importância da nossa individualidade bioquímica, que significa que nem sempre o
alimento que faz bem para uma pessoa fará para outra!
E quando realizamos uma
alimentação monótona, com pouca variedade, com alto consumo de alimentos
industrializados, e conseqüentemente baixa qualidade nutricional, o nosso corpo
ficará em desequilíbrio, respondendo através do acúmulo de gordura, enxaquecas,
cansaços inexplicáveis, insônia, depressão, hiperatividade e até mesmo o
aparecimento de doenças auto-imunes e degenerativas. E no autismo? O quanto a
alimentação pode influenciar na melhora ou piora dos sintomas?
Sabe-se também que uma
nutrição correta pode influenciar em nossas características genéticas, já que a
influencia do ambiente corresponde a 70% no aparecimento de doenças. E que a
nutrição adequada e individualizada é um importante contribuinte para amenizar
as características e os sintomas das desordens autísticas, ocorrendo melhora
significativa na sociabilidade e comunicação.
Por esta razão, existem várias intervenções nutricionais e dietas adotadas
para auxiliar o tratamento de crianças autistas. As mais conhecidas são: a
dieta sem glúten e sem caseína - SGSC, a dieta de Feingold, a de Carboidratos
Específicos, a BED - Body Ecology Diet e a dieta de oxalatos, sendo que a dieta
com maior adesão pelas famílias americanas e inglesas é a SGSC com relatos de
melhoras de sintomas em torno de 70% dos casos e seguidas pela maioria das
famílias afetadas pelo autismo e que adotam uma dieta como forma de tratamento.
Esta dieta também foi a primeira que começou a ser divulgada no meio do autismo
a partir de 1990 por pesquisadores ingleses e noruegueses, junto a Universidade
de Sunderland e, que consiste basicamente nas retiradas de duas proteínas na
alimentação: o glúten, proteína encontrada em produtos derivados do trigo,
centeio, aveia, cevada e do malte e, a caseína, proteína encontrada nos leites
animais e seus derivados.
Nestes vinte anos de uso da dieta como um meio de tratamento para estas
crianças e os novos conhecimentos que foram sendo adquiridos sobre a síndrome,
hoje grande parte dos pesquisadores e famílias, admite que na dieta básica sem
glúten e sem caseína, ainda sejam adotadas as retiradas de corantes e produtos
químicos e industrializados da base alimentar destes indivíduos.
Conversando com alguns terapeutas brasileiros que atendem pacientes nestes
países, sabemos que é difícil encontrar uma família que não faça algum tipo de
intervenção nutricional com sua criança, ao contrário do que ainda ocorre no
Brasil, onde uma dieta adequada para a criança autista ainda é pouco divulgada.
Nestes países, Estados Unidos e Inglaterra, existem centenas de livros a
disposição dos pais para orientá-los sobre uma alimentação adequada, específica
e equilibrada para esta população, livre de agressores e com aporte nutricional
eficiente para o bom desenvolvimento e prognóstico destas crianças.
No Brasil o 1º livro a falar sobre o assunto foi lançado somente este ano:
Autismo Esperança pela Nutrição, de Claudia Marcelino.
Portanto, a importância dos
cuidados com a alimentação, deve ser desde a infância até a fase adulta, mas
uma boa notícia, nosso corpo diariamente se renova, então sempre se esta em
tempo de melhorar a qualidade da nossa alimentação. Quando mudamos o nosso
estilo de vida, melhoramos a nossa vitalidade positiva, nosso humor, nossa
maneira de enxergar o mundo e as pessoas a nossa volta.
Nesse primeiro contato,
gostaria de fazer uma reflexão. Porque precisamos comer?
Precisamos refletir em que tipo de herança
gostaríamos de deixar para nossos filhos e netos. A relação com sua saúde, o
corpo e o ambiente que eles merecem e estamos deixando passar. Qual a postura
que gostaríamos que nossos filhos tivessem perante a comida: a de manter a
saúde ou a de saciar o desejo consumista?









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